sábado, 3 de setembro de 2011

Seu João, por Jonathan Ferezini

Ainda me lembro como se fosse hoje. Os campos todos cobertos pelo gelo escondiam a tristeza que viria”.  Assim contou-me seu João, filho de imigrantes italianos, referindo-se aos dias amargos após a grande geada de 1975, recordando o frio que havia se abatido em nossa região. Um corpo cansado de pele clara e tom avermelhado, seu João, escondia sob os óculos de lentes redondas um homem no qual o tempo mostrava as marcas. Aos 83 anos, a Unidade Básica de Saúde (UBS) era um dos seus compromissos semanais. Um coração fraco e uma pressão arterial que mais parecia um “socar de pilão: hora sobe, hora desce”, o faziam necessitar aferí-la constantemente. Naquela manhã, porém, algo estava “deferente”. O filho de imigrantes apresentava crises de tontura e mal estar. O medo recôndito no olhar daquele homem abateu-se sobre mim. Como se me fosse dado saber que a qualquer momento a morte poderia levá-lo. Não que eu seja um ser imortal, afinal todos nós a qualquer momento podemos deixar esse mundo. Mas o reconhecimento de que os problemas de saúde e a idade avançada poderiam tornar mais próximo esse momento me inquietaram.
As enfermeiras da UBS foram rápidas e cuidadosas. “Seu João, sua pressão esta em 18/10 não podemos deixar que vá embora sem que passe pelo médico. Seu João o que o senhor anda tomando para a pressão?”. A surpresa da pressão tão alta, misturada com a tentativa de explicar os diversos tipos de medicamentos que havia tomado, o fizeram emitir palavras confusas: “É, primeiro eu tomava um remédio que o medico me receito. Tomava um comprimido. Depois um só não abaixava a pressão, daí comecei a tomar dois, e depois três”. A essa altura, outra questão já me deixava irrequieto. Apesar da minha pouca experiência e o olhar de desaprovação das enfermeiras, tínhamos ali um típico caso de automedicação.
E ele continuou: “fui no cardiologista e ele me receitou um remédio...É catenorol, catenolol, altenorol...Mas daí eu comecei tomando um, depois dois e depois três e continuava aumentando a minha pressão. Também me dava uma queimação terrível, então parei de tomar”. A essa altura a enfermeira já havia me dito que o remédio se chamava atenolol e que essa droga não poderia ser tomada sem a devida cautela.
A questão da saúde de seu João, saúde. Rapidamente foi conseguida uma consulta médica para as 13h00min. Eu, curioso por saber o que aquele homem pensava ser a causa de sua doença, perguntei: - O que o senhor acha que lhe causou isso?
Não hesitou em me dar a resposta: “Na época que eu trabalhava na roça não tinha moleza. Podia fazer chuva ou sol que estávamos lá, meus irmãos e eu, na labuta. Pegava saco de 100 Kg de café numa facilidade só, deve ser por causa do esforço que meu coração está fraco. A pressão alta deve ser por causa da comida. Quando matávamos porco, o fritávamos com bastante sal e colocávamos numa lata bem fechada para não estragar”. Nesse momento já percebia um caso comum. Atribuir as extravagâncias do passado a causa das doenças de hoje. Terminado o atendimento, a funcionaria da UBS foi clara : - “Vá para casa seu João e descanse. Não coma comida salgada e evite fazer esforços. Preste atenção no horário para que não perca sua consulta hoje”. Contente por saber que se preocupavam com ele, ainda não me esqueço de suas palavras, quando já cruzava a porta para ir para casa:-“Estou bem, hoje cedo mesmo já fui fazer minha caminhada”.
Um sorriso me veio à face.

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