Foi a mão que ela apoiava na bengala marrom escuro que me fez olhar para ela. Eu, sentada na recepção, caderno no colo escrevia freneticamente. Meu esforço, afora o de não me sentir atravessada pelos olhares de estranhamento pela minha atitude, era apurar os ouvidos e registrar na escrita aquilo que levava tão diferentes pessoas a debruçar os braços no balcão do Posto de Saúde Ney Braga. Tanto mais queria ouvir o que agentes comunitárias improvisadas em recepcionistas tinham a dizer como retorno formal às necessidades que eles vertiam no balcão. Foi quando a altura do meu olhar cabisbaixo encontrou as mãos dela na bengala. Havia força na mão que amparava o peso do corpo na bengala e o resquício de um esmalte de cor rosa a ser removido das unhas crescidas. Foi a mão dela que atraiu minha atenção.
Ouvi quando lhe disseram: aguarde que vão chamar a senhora para medir a pressão. Em acato, sentou-se ao meu lado por ser o mais abreviado passo para descansar do peso e aguardar ser chamada. Tudo posto para que eu perguntasse logo de chofre: a senhora sofre de pressão? Eu queria era puxar papo. E puxei! Conversar é coisa que demanda vontade, vontade de verdade, por saber de alguém que veste uma vida diferente da que vestimos. Conhecer o outro expande o mundo e ela me fez com força a vontade de fazer meu mundo maior a partir dela.
Contou-me que tem 63 anos e nela testemunhei uma pele morena bastante rejuvenescida, num corpo nem gorda e nem tanto magra. Chama-se Maria e foi empregada doméstica por 20 anos. Agora é aposentada por um salário mínimo. Os dentes, por perfeitos e claros, denunciam não ser os seus. Os olhos negros. Uma calça de moleton cinza com camiseta, adornados por uma pochete amarrada na cintura encardida pelo uso batido serve bem para assegurar as posses momentâneas: R$30,00, um cartão para uso de circular com recomendação da presença de acompanhante e um documento. Assim feita, saiu de casa para ir medir a pressão. Faz isto dia sim e dia não. Mora no Sanenje e ensina fácil onde fica sua casa: “quem anda bem gasta 5 minutos para ir até minha casa, mas eu demoro mais de duas horas”. Dia sim e dia não ela vai ao Posto medir a pressão. Tem 63 anos.
A bengala ela não larga nunca. Permanece sozinha durante todo o dia. Quando é noite o neto chega, trabalha na Farmácia Popular. É ele mesmo, a partir dos seus 23 anos, que faz a única voz que, por vezes, ela tem no dia. Outros três filhos já partiram da casa e retornam esporádicos para o almoço do domingo a fazer as prescrições mais solenes para os cuidados para com a vida e o sair de casa. A vizinha da casa da frente chega ao final do dia e nisto pode-se ter um tanto de prosa, mas nem sempre porque todo mundo é ocupado, né? O outro tanto é ser só, porque sair de casa é mesmo um perigo atroz. Dia desses a pressão subiu enquanto estava no ônibus e para voltar para casa precisou da ajuda de uma mulher. Outra vez, veio um branco e não vinha na cabeça o que fazer e nem para onde ir. Isto dá muito medo, ela admite. Alguém sempre tem que dar a mão na hora de descer do ônibus. Isto de não poder andar direito é muito ruim.
Esta doença, pressão alta, dá muito medo, D. Maria me conta. O medo de não mais poder andar e depender das pessoas para tudo, até para tomar um banho. Sofrer da pressão deixa o corpo numa ruindade só, as mãos ficam tão fracas que nem se pode pegar uma coisa bem levinha e vem uma tontura forte que derruba se tiver de pé. Depois tem sempre o medo que a pressão suba de hora para outra. É uma doença que pode arruinar de hora para outra, reconhece D. Maria, arruinar a capacidade de andar e de cuidar de si mesma. Agora a vida é assim, não tem o que fazer, é aceitar e tomar os remédios que o médico manda.
A doença veio depois de uma dor descomunal, dor que se faz presente a avermelhar os olhos e os aguar, ainda hoje. Aconteceu aos 41 anos de idade e a memória revive a dor que a obriga crispar a mão mais forte na bengala. Conta-me do seu filho, o filho amado e que chegou a notícia e que desmaiou. É a morte do filho, de 21 anos, num acidente de moto, que ela retoma das lembranças da vida para justificar o seu estado. D. Maria me diz que teve um acidente quando mais nova e machucou a perna: “fez um defeito na perna, mas não empatava nada, não”. Mas, a perda do filho foi diferente, daí foi diferente.
Depois do enterro do filho, foi passar aquela semana na casa da filha. Amanheceu um dia e ela não queria levantar, sentia uma ruindade no corpo inteiro, o pé e a mão formigavam, foi aí que veio o derrame. Logo levaram para o Hospital Municipal, e rapidamente foi atendida, foram quinze dias no hospital. Saiu de lá sem andar. Foi um derrame. E depois veio outro derrame: “deu derrame mesmo, eu não andava e fiquei com dificuldade de falar, eu ponho uma coisa no lugar e depois esqueço. Depois eu fui tentando andar devagarzinho e minha cunhada me levou para Curitiba e ela me juntava assim pelo braço e eu ia agarrando neste pau e tentando andar, todo o dia, e foi indo que melhorou um pouco, mas eu não consigo andar muito. Esta minha cunhada é muito boa, ela comprou um celular e me deu de presente só pra falar comigo, ela liga todo o dia pra conversar comigo, ela gosta mesmo de mim”.
Como se não bastasse arrematou: depois eu perdi outro filho, acidente de moto também. Os olhos dela não couberam mais a água contida quando largou de si o que parecia preso: “eu perdi outro filho em acidente de moto, eu perdi dois filhos em acidente de moto”. Eu, sem saber mais de mim, olhei para os olhos dela com afeto, interrompi a entrevista e a acolhi porque foi o que me deu fazer: olha D. Maria, foi um pedaço muito difícil este que a senhora passou, mas eu sei que a senhora é mesmo uma pessoa muito forte e querida, veja como sua cunhada a quer bem. E veja só, eu mesma que não a conheço, já gosto da senhora pela sua vida e pelo exemplo que me dá; a senhora é uma pessoa de quem é muito fácil gostar. Foi o que consegui lhe dizer. Disse porque a vida que ela compôs me motivou a vontade de dizer.
D. Maria gosta e respeita os médicos que cuidam dela. São muito bons mesmo, o único problema é a demora, né? Reclama que está esperando uma consulta com cardiologista faz mais de 20 dias. Se pudesse ter um tratamento mais rápido ia ser muito bom. E bom mesmo seria se tivesse alguém estudado para falar com ela, para explicar o que ela não entende. Nisto compartilhou comigo seu maior sonho, a sua vontade de sempre que nunca a abandona:
“Eu gostaria de ter mais ajuda de uma pessoa, uma pessoa que soubesse mais que eu. Ou que tivesse assim uma escola para mim estudar, pra aprender. É que eu sou analfabeta. Eu gostaria de aprender ler. Antes eu tentei aprender, uma mulher me ensinava, mas depois eu mudei. Agora eu tenho tempo. Agora eu podia aprender ler. Agora eu tenho tempo pra aprender.”
Quando chamaram D. Maria para medir a pressão fiquei com as palavras dela reprisando na cabeça: o sonho que nunca morre, o sonho de aprender a ler aos 63 anos. O sonho que não tem acabar. O sonho que pode fazer viver a vida. Revi aquela mão no apertar mais forte na bengala quando do rememorar a perda dos filhos. Revi mentalmente os gestos e a vontade de se mostrar forte. Fiquei pensando e pontuando-me com a certeza de, para D. Maria, cuidado, cuidado integral mesmo, passa por um conjunto de ações que vão desde o cuidado médico para com a pressão arterial; a prescrição adequada de medicamentos para evitar novos acidentes vasculares cerebrais; um programa de atividades físicas orientadas por profissionais competentes; incremento em sociabilidade; apoio psicológico para tratar o trauma da perda dos filhos e, como não deveria deixar de ser: aprender a ler. Seria o sonho a alimentar a vida.
Esperei por sua saída da sala. Perguntei-lhe sobre como estava a pressão: 16x10. Achou que estava bem controlada. Tem dia que está ainda mais alta. Mas, assegura que toma os remédios bem direitinho, o filho separou nas vasilhinhas os comprimidos com a hora certa de tomar. Toma, também, o remédio para a cabeça, para não dar mais derrame.
Perguntei-lhe se gostaria de participar de um grupo de Terceira Idade, respondeu-me que sim, que seria muito bom e se fosse por perto seria melhor ainda. Novamente revelou que é muito ruim ficar em casa sozinha, sem ter com quem conversar, só pensando nas coisas do passado. Confessa-me que, se os filhos deixarem, ela vai onde for preciso para aprender a ler.
E ela vai mesmo. Vai porque eu testemunhei o afastar-se dela, apoiada nas paredes e na bengala, honrada no seu propósito de caminhar cerca de duas horas até chegar em casa, sozinha, passo a passo.